8 de jun. de 2010

Hoje o texto inteiro é um PS...

Estranha energia esta que liga público e atores em uma peça de teatro...
É possível sentir a vibração.
É quase possível enxergar os átomos e moléculas se movimentando e cruzando os limites do palco.
O ator se renova. 

Todo sacrifício, de noites e mais noites de insones ensaios, esgota-se em um piscar de olhos.
tenho sentido uma falta imensuravel desse espaço a qual me dediquei durante tantos anos.


"Sobra-me tanta falta" dos amigos " sem juízo" que tinham sempre as palavras certas nos momentos inadequados e por isso eram tidos como inconvenientes. 


" Sobra-me tanta falta" dos diretores com quem trabalhei e que tinham (para a minha sorte) tanta paciência...com meus atrazos, com meus esquecimentos, com meu medo de cair no meio do espetáculo, com minhas crises de existência... 


Sinto falta especialmente do MEU diretor, meu querido Zeca Gonçalves, sinto falta das suas palavras, das suas broncas " esquece Anne, era pra ter trazido a maquiagem, esqueceu? não adianta mais pedir desculpa, não vai remediar, aprenda com o erro e na próxima não nos deixe na mão..." haaa, como sinto falta de suas broncas sempre me ensinando. Acho que nunca disse a você o quanto me fez bem ter pertencido a trupe, e tê-lo como diretor, como amigo.



"Sobra-me tanta falta" ate mesmo das chatas reuniões, que hoje nem de longe me parecem chatas, dos lanches que ninguém comia por que eram passaporte diretos para dois ou tres dias de dor de barriga, das idéias para novas peças, da intimidade que existia entre nos a ponto de saber que o outro estava pensando apenas pelo olhar.


"Sobra-me tanta falta" dos exercícios de interpretação, das oficinas de atores que serviam mais para nos mesmo que para os alunos, das músicas sempre novas e que ali, dentro do grupo, ouvidas junto ganhavam um novo sentido, um ar de exclusividade, eram NOSSAS músicas...


"Sobra-me tanta falta" dos amores nascidos (que na verdade meu foi apenas um), em cima do palco do teatro, dos olhares sinuosos durante os ensaios e do coração que disparava toda vez que a cena em que contracenávamos ia ser ensaiada, o frio na barriga e a insegurança que esse sentimento trazia, era inédito, e era mágico , e era nada mais do que momentâneo...


Mais além de tudo, "sobra-me tanta falta" dos aplausos do público, dos meus olhos marejados a cada fim de espetáculo, aqueles olhos que viam o mundo como se ele fosse o espetáculo maior, onde os atores podem mudar de personagens se assim desejarem, e isso me criava uma esperança tão bonita, que nada nem ninguém era mais ou menos importante, todos tinham a mesma importância, pela raridade que eram, e pelo modo como eu via e foi ali que eu aprendi que todo mundo é belo. 


Hoje eu não sei se ainda tenho aqueles olhos, e por isso " sobra-me tanta falta" da menina que eu era...

PS: nem preciso dizer qual música eu estou ouvindo, apenas que a repeti cinco vezes enquanto escrevia.

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