28 de mar. de 2012

Trecho





Desta vez, estava tudo certo, ia funcionar e ninguém teria que“Muito além, dos confins inexplorados da região mais brega da borda ocidental desta galáxia, há um pequeno Sol amarelo e esquecido. Girando em torno deste Sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de km há um planetinha verde azulado, absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinareamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia!

Este planeta tem, ou melhor, tinha, o seguinte problema: A maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz.

Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente a movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral, não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes, e assim, o problema continuava sem solução.

Muitas pessoas eram más e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores, algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima ideia. e que ninguém jamais deveria ter saído do mar. E, então, numa quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras, pra variar, uma garota, sozinha, numa pequena lanchonete, de repente, o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu: Como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz.
 ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre!”

O guia do mochileiro das galáxias

3 de mar. de 2012

O que tem pra hoje...


Na inteireza e verdade de me encontrar
estou me perdendo
o cansaço me consome
a mentira me assume
a canalhice me aparece
se enfeita
me afeta 

a mansidão se instala no peso
no peito
o corpo responde ao estereótipo 
não responde ao pensamento 
que já não responde ao sentimento
que não 
que não
nem que não
o não já não tem mais o peso do não
e o sim, perdeu a graça de aproveitar o vacilo do não

nada em mim
está em mim
nada 
essa que estou não sou eu 
essa que sou, não é mais neste instante em mim 

não me sinto confortável nesta paragem
por favor, me devolvam a mim mesma!

nada está em mim
devolva meu pensamento
minha escrita
minha literatura
minha opinião
meu consolo
meu choro
meu riso
meu ódio
devolva ao meu corpo
o MEU corpo
devolva à minha vontade
a minha gana 

devolva !
isso só tem vida em mim
se é que existe isso em mim. 

porque estou travestida de felicidade
que não é a minha
é a clandestina 

mas sem o sabor vivo do proibido
é clandestino no pior sentido
daquele que foge
que entra sorrateiro
que invade
e estupra a alma

devolva um pedaço da minha mansidão
da minha hora farta de falta de não fazer nada
(aquela do café) 

além de me inteirar com o que tenho feito
devolva as rédeas destas minhas horas que ainda não gastei 

que estão vindo de encontro a mim 
tão velozes
tão atrozes
algozes desta reconciliação comigo mesma 

devolva o som do meu peito neste grito calado
que mora em mim estes dias
junto a uma alegria cega

eu tenho mais em mim a dar
mais que uma simples execução de afazeres
eu tenho mais em mim a dar
mais que uma simples ordem de pagamento
eu tenho mais em mim a dar
mais que um telefonema de contrato
eu tenho mais em mim a dar
muito de colocar o pé no mundo
e dar
a mim uma alegria de perna ao ar

me agarrar na poeira do pensamento 
percorrer léguas numa rede pendurada à sombra fresca
provar a agitação do silêncio
a maciez desta pele
no calor de um abraço
de um braço dado, colado
apertando o outro
sentindo estar vivo
impulsionando o sangue destas veias que falam
percorrem o corpo desta mulher
desta amiga
desta filha
desta amante
desta cível
desta hipócrita
desta cínica
sonsa
sonhadora
mentirosa
artista
criadora
infame
desta que mora em mim e tem 
as qualidades e defeitos iguaizinhos 
a de um mero e grande mortal 

ela que não morre em mim
é imortalizada em sua inteireza 
se esconde por trás deste cadafalso
prestes à executá-la nesta praça de suas entranhas

tenho mais a dar
que este pensamento
não menos que um bom olhar de um por-de-sol
dar uma boa risada 
de ter o prazer de desfrutar dos ambientes
de conseguir lembrar ao menos uma cor 
do último lugar de pouso entre as minhas asas de borboletas
de lembrar de um sorriso ao final do dia
até mesmo lembrar da última reunião tida entre os meus olhos 

tenho eu uma imensidão de sede 
de ficar parada em mim um instante
para ficar viva em mim 

e passear por um segundo no meu corpo
no meu juízo
no meu sentimento
afagar os meus cabelos
os meus próprios dos outros

garimpar 
separar
ajuntar
passar
de bem 
de boa!

isso não lhe é de direito
é de natural
querer-se bem!