7 de dez. de 2011

Pequeno relato de uma história quase esquecida

Ela se atola em exigências. Diante do espelho reflete sobre o muito que deixou de ser. De tanto deixar, já não sabe quem direito é. Sabe, é certo, por exclusão: não sou assim, não sou assado, não gosto disso e não gosto daquilo. Autoconhecimento por exclusão é tudo o que tem? Conhecer-se nas negativas?
Suas interrogações viajam a velocidade da luz. Não consegue sossegar direito o espírito diante de tantas questões. Parece que o mundo resolveu parar na sua cabeça por imensas horas. É quando lembra da infância e de um dos seus dezembros:

Estava sentada na calçada de casa com o braço engessado. Ele havia quebrado, após um voo do muro ao chão, onde parou com um gosto de sangue na boca. Sentiu a dor no braço, como se carregasse 200 quilos.

Chorou até a mãe lhe escutar e levá-la ao hospital. O resultado foi gesso e atenção de toda a meninada, o que achava ótimo, afinal, os pudores da sua mãe lhe tiravam a liberdade de brincar na rua, sempre lhe restando a janela para espiar as brincadeiras e trelas de todas as crianças.

Sim, este foi um dezembro inesquecível. Nunca pensou que uma fratura lhe rendesse tanto prazer. Inventou histórias ótimas sobre seu braço. A cada criança que perguntava, aumentava um pouquinho o enredo, mudava o roteiro, acrescentava e tirava personagens com uma habilidade de fazer inveja ao mais renomado escritor. Os olhares dos seus iguais cresciam de tamanho e ganhavam um brilho de suspense e curiosidade, fornecendo mais estímulo à autora. Em uma das suas contações, fez do parapeito um verdadeiro palco, dando asas à imaginação. No entanto, a  mãe chegou de mansinho e desfez a história da menina em uma tacada só. Desmentiu tudo o que a filha havia criado, informando ao pequeno público toda a verdade. Não admitia mentiras nem por brincadeira. A menina chorou como se lhe houvesse quebrado o corpo inteiro.

Três dias de muitas lágrimas e sua mãe sem entender o que chamou de exagero.

Hoje ela vive de escutar histórias, sondar-lhes o íntimo e conhecer-lhes a motivação. Tem encontrado muitos escritores pelo caminho. Escritores como ela, que não escreve uma linha sequer, porém sabe de todas as letras. O problema é que, de vez em quando, não se reconhece mais nas histórias que vive e estaciona no espelho para se refletir. Escapole para uma região insondável, cheia de signos desconhecidos, pontuações confusas que lhe privam o raciocínio, mais que isso, lhe distorcem muito a visão e fica com esse sentimento de estranheza a querer desenhar a própria pessoa com pincéis alheios.

Negativas então é tudo o que lhe resta, porque logicamente não consegue se encaixar. Negativas que desenham uma silhueta ainda incompleta. No entanto, pondera: não seríamos todos assim? Silhuetas incompletas, desenhos ainda em construção? Foi aí que lembrou de uma parte daquele dezembro, uma parte que havia, de fato, esquecido. Lembrou que após os três dias de choro, bateu a sua porta Fernandinho, o menino mais inteligente da rua. Ele entrou devagar no seu quarto e falou:

_ Clararice, eu vim para saber o que você vai fazer depois que o braço colar? Será que dá pra gente experimentar pular também do muro de Dona Mariquinha? Beto diz que não tem coragem, mas eu sei que você nos ensina a tentar.
Antes que ela pudesse responder, ele continuou:

_ Outra coisa, a gente queria saber também se você não vai nunca mais nos contar histórias como aquela

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