16 de nov. de 2010

Infância minha

Quando calaram-se as últimas fadas, ela se sentiu só, a criança. As amigas falavam de moda e exibiam os sapatinhos cor de rosa, com saltos. Punham maquiagem nos olhos e ensaiavam o mais novo rebolado. Ela não sabia de nada. Gostava de andar descalça e de rebolar com bambolê.

Por muito tempo, conviveu bem com o isolamento que lhe impunham as coleguinhas de sala. Tinha as fadas, sua companhia. Mas o tempo se encarregou de apagar estes rastros e fazer a solidão pesar, como cruz.

As meninas apontavam-lhe com o dedo e riam. Diziam-lhe louca, aluada, boba, abestalhada e outros adjetivos mais impróprios. Ela não dizia nada. Mas, agora, já não se sentia tão bem.

Chorava por ter que ir à escola, que lhe parecia uma tortura sem fim. Afundava-se nos livros para não ter que olhar as crianças a sua volta. Queria ficar em casa, com a mãe e a irmãzinha. Brincar de boneca, pega-pega, esconde-esconde. Ouvir histórias bonitas e dormir com cantigas de ninar. Mas as amigas da escola lhe roubavam a infância, a cada dia.

Quando cansou de ser sozinha, passou a imitá-las. Decorou os passos da dança e aprendeu a rebolar sem bambolê. Exigiu da mãe sapato alto, com fivela rosa. Aprendeu também a xingar, falar desaforos e olhar de banda para os que não se enquadravam.

Foi aí que as fadas, que estavam caladas, mas vivas, começaram a morrer.
Hoje, ela tem 23 anos e a alma seca, como imenso deserto.


2 cabeças pensantes:

Unknown disse...

Se a garota do texto for vc minha amiga, algo esta errado, por que nem de longe sua alma é seca. Você é paixão lembra? paixão e liberdade!

nunca vou esquecer dessas palavras suas.

Morg. disse...

Minha flor!

Postar um comentário

O que você acha?