17 de mar. de 2010

Para ficar claro que eu sei bem o que querem fazer...

O homem criou Deus masculino, todo poderoso, onipotente e onisciente e se colocou como tradutor fiel de seus desígnios.
Foi assim que o homem conseguiu sua supremacia durante tanto tempo, mesmo não passando de um animal qualquer

Nunca o homem entendeu a mulher. Ela sempre foi o "outro". Como detentor dos desígnios do Deus-macho, Pai Eterno, era legítimo ao homem que ele controlasse toda forma de vida "abaixo" dele. Sua proteção, seu "paternalismo" sempre foi o instrumento mais eficiente de controle, muito mais do que a violência direta (mesmo podendo ser uma espécie de violência).

Fingir que protege, quando na verdade está apenas instrumentalizando e desfazendo resistências, torna o outro propício para ser dominado e controlado. Diminuir o outro e fazê-lo crer que é inferior sempre fez parte da estratégia do homem prevalecer sobre todas as decisões.

Nada perante o homem tem vontade própria. Tudo acontece mediante sua concessão e permissão: simplesmente porque ele traduz o belo, o justo e o bem de todo o Universo.

Essa megalomania absurda resolveu o problema de subsistência. Acharsem-se filhos do dono do mundo (macho, claro) proporcionou a falsa confiança de que todas as coisas do mundo estavam ao seu dispor. E com isso o homem dispôs mesmo, inclusive de si próprio, direcionando-se a esse projeto auto-destrutivo e do qual não consegue mais sair. Tanto dispôs que estamos na iminência do esgotamento dos recursos naturais do planeta e caminhando para a globalização absoluta do modelo capitalista.


A mulher, ser estranho, rebelde que insistia querer pensar por si própria, punha em risco essa megalomania. Sua independência nunca foi vista como tal, mas sim como uma natureza maligna. Dotada das mesmas habilidades, mas com sentidos próprios, não podia conviver no mesmo nível do homem, pois tudo o que não é homem é inferior, é menor e só existe para ser disposto por eles.

O homem, vendo o quão difícil era competir com esse ser, tratou logo de criar uma solução (para ele, óbvio). Elevou o estatuto feminino ao estatuto humano, embora conservasse a conveniente diferença hierárquica. É igual quando se promove o peão a supervisor para ele parar de reclamar, sabe?

A mulher, então, foi "elevada" ao estatuto de ajudante do homem. Humana. De segunda categoria, mas humana. Ou seja, um não-homem um pouquinho melhor que um animal ou uma coisa. Era útil.

Talvez as coisas tivessem se acalmado durante um tempo. Mas esse bicho-humano não-homem não é fácil. É ardiloso. Na mínima brecha quer ser humano de primeira categoria e, pasmem, querem falar sobre o mundo!!! Que audácia. Como ela pode falar de algo que é do homem e feito para o homem? Impertinente, arrogante, prepotente. Foi preciso calá-la. Mas como. se precisamos dela e se ela precisa, assim como tudo em volta do homem, nos servir naquilo que desejamos? Não, não... precisamos ser tão ardilosos como ela. Se possível mais...

Assim o homem, como detentor da palavra, da tradução do desígnio do dono do mundo, classificou essa mulher rebelde, insubordinada e arrogante como maligna, mentirosa, diabólica, destrutiva, e responsável por todos os sofrimentos do gênero humano. E por outro lado construiu um modelo de virtude, de mãe, de virgem, de pudica, recatada, caladinha, eterna aprendiz que nunca vai entender nada (a não ser que nasça homem) para cumprir o papel que lhe cabe na sociedade patriarcal.


O homem, grande pai e filho do pai do Mundo, benevolente, lhe concedera a oportunidade e privilégio de ser o modelo de virtude se, e somente se obedecesse aos padrões impostos. Seu discurso era algo assim:

- “Vocês são más por natureza. Mas nós permitimos que vocês se tornem boas (para nós, claro), basta que se calem e acatem o caminho e os papéis que lhes apresentarmos.”

As que fugiam desse padrão, quando conveniente, tudo bem. O que importa é a utilidade que tinham para o homem. Portanto, aquelas que eram chamadas de putas, diabólicas e arrogantes, podiam exercer sua malignidade desde que pudessem satisfazer a hipocrisia desse homem santo e detentor do mundo quando lhe conviesse.

Mas também quando convinha ao homem, em momento algum foram poupadas (tanto as que cumpriam o modelo quanto as que não cumpriam, embora servissem a eles de alguma forma) de serem violentadas, atacadas, queimadas, usadas e jogadas fora. Claro, pois desde o começo dessa história hedionda, a elevação do estatuto da mulher como humano foi apenas uma concessão conveniente, falsa: ela nunca deixou de ser apenas uma coisa, assim como tudo no mundo é para o homem.


PS: porém o que poucas pessoas sabem é que há anos, milênios atras as mulheres eram respeitadas.

1 cabeças pensantes:

Garotinha Jê disse...

Amei o texto!
Agradeço sempre à Deusa o conhecimento do seu poder...
Cabe a nós fazermos a diferença no combate à essa (in)consciência paternalista.

Beijo, moça!

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